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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Octávio e Pina Tegão, sonhos e anseios, ações e história

por George Vilches

O convite
Comecei a pesquisar sobre Octávio e Pina Tegão quando fui solicitado para realizar uma pequena cena sobre o teatro na cidade. Entre tantas referências que conhecia sobre teatro no ABC, eu queria a origem de tudo, do teatro na cidade e, sendo assim, cheguei ao São Caetano Esporte Clube: o primeiro lugar da cidade que ofereceu espetáculos e festivais dramáticos dançantes na década de 1920 e 1930. A presença de Octávio e Pina Tegão era marcante e reluzia nas páginas e fotos amareladas pelo tempo.

A história conhecida
Numa EMEI, a alguns quarteirões da minha casa, o nome “Octávio Tegão” está eternizado na fachada. Mas esse nome está lá pela presença desse homem no poder legislativo dos primeiros anos da nova cidade de São Caetano.
Eu tinha informações básicas. Ele trabalhava no cartório da cidade e ela, após o casamento, já não trabalhava mais. O que tinham em comum? Eram casados. E o que mais? Eram atores. E vou mais além, os pioneiros do teatro na cidade. Junto com alguns amigos - Mateus Constantino, Aldo Negrini, Teodomiro Sigolo, Constantino de Moura Baptista, Dante Negrini - foram a primeira porta de entrada do teatro em São Caetano.

A saga
E então era isso... E agora? Para onde ir? O que fazer?
O arquivo de documentos e materiais existentes no acervo da cidade sobre Octávio se resumia ao seu período do legislativo e, sobre Pina, nada, nem uma foto, um documento sequer. Apenas algumas citações.
Surtei! Como eu ia escrever uma cena sobre duas pessoas teatro se, até então, eles eram grande referência por conta de suas ações no poder legislativo da cidade? 
Resolvi apelar, precisava descobrir algo, porém não tinha nenhum dado sobre a família. Tiveram filhos? Moravam onde? E os filhos moravam na cidade ainda? Aonde ir? Onde poderia encontrá-los? Qual é o lugar onde nosso fim é inevitável? Uma resposta: Cemitério.
Conhecendo um pouco sobre a história da cidade, já sabia para qual dos três cemitérios existentes eu tinha que seguir. Cheguei à secretaria e, com a data de falecimento dele, olhei o livro de registro de óbitos do mês de julho de 1966. Nada! Não tinha registro. Minha última esperança caiu por terra. Eu sem saber para onde ir e o diretor do cemitério de mãos atadas. Mas, num momento de iluminação divina, uma das mulheres que limpa os túmulos, naquele instante passava pela secretaria e se sentiu familiarizada pelo nome. E lá vou eu em busca do túmulo junto com a funcionária que já lera aquele sobrenome em alguma lápide.
Surpresa! Ela foi direto ao túmulo. Mão divina, quem sabe?!
Vi a foto de Pina Tegão que, a partir daí, virou Josephina Juliani Tegão e reencontrei Octávio.
Com o endereço do familiar responsável pelo túmulo na mão, toquei a campainha e quem atendeu foi uma senhora, cunhada do casal Tegão. Uma conversa de dez minutos no portão me elucidou várias coisas. Mas eu queria mais. Ela então passou o telefone de Sérgio Tegão, um dos filhos do casal, que mora em São Caetano.

Uma ligação e uma visita
Liguei. Coração na boca, mão tremendo e lábia afiada. Tudo perda de tempo, afinal, quem não gosta de falar sobre o passado?
Marcamos um bate papo numa tarde nublada de quinta-feira. E a conversa regada a café e bolo me convidou para entrar no livro de memórias da família Tegão.

George Vilches e Andréa 
Damasceno (Cia.TEMT, 2009)
A cena e o dia
Eu já tinha minha cena e tudo estava pronto, figurinos, adereços e produção geral.  Atores ensaiados e afiados fariam o casal Tegão. No dia da apresentação tivemos mais um momento divino (ou não!), o ator que faria Octávio acordou sem voz. Socorro! Quem faria o papel?
E lá vou eu! De terno e gravata, com um presente surpresa, dou vida a Octávio Tegão. No fim da cena, que felicidade, os representantes da família dos pioneiros acima citados comentaram como o casal de ficção se aproximou do casal real. Mão divina de novo?

A história
Octávio Tegão nasceu em Rio das Pedras, região de Piracicaba, interior de São Paulo, no dia 20 de setembro de 1898. Já Josephina Juliani Tegão, conhecida como Pina, nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, no dia 02 de novembro de 1907.
Tiveram dois filhos: Mário Luiz e Sérgio.
Foram atores de teatro amador e fundadores do Grêmio Instrutivo e Recreativo Ideal. Atuaram em peças como “Escravo e Cocaína”, “Deus e a Natureza”, “ O Filho do Adultério”, “Os Dois Sargentos” entre outros.
Octávio Tegão recebeu o título de cidadão sul-sancaetanense e Pina Tegão ficou eternizada como a primeira atriz da cidade. Desenvolveram várias ações em prol da cultura e tiveram participação marcante na história cultural da cidade.
O conservadorismo e os tabus, então vigentes na sociedade, não foram impedimento para esses dois artistas que abriram caminho para outros que viriam nos anos seguintes.
Octávio faleceu em 05 de julho de 1966 e Pina em 09 de março de 1977.

O fim, o artigo e a EMEI
Fico muito feliz quando penso nessa pequena aventura que terminou com uma matéria escrita para a revista Raízes de São Caetano, cujo objetivo é manter a história viva.  O foco dessa matéria não foi o casal influente nas decisões políticas da nova cidade, mas sim o casal de atores que iniciou o teatro em São Caetano.
Hoje, quando passo pela EMEI Octávio Tegão, sorrio. Ela já não é a mesma, mas continua lá. Eu não sou mais o mesmo e continuo seguindo. Octávio e Pina vão continuar também, enquanto existir teatro no ABC, enquanto existir memória. Para sempre.


George Vilches é ator, artista orientador e diretor teatral formado pela Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Coordena a Cia.TEMT (Cia. de Teatro Experimental Maria Tita) que completa 10 anos em 2011. Desenvolve trabalhos de pesquisa sobre a memória de São Caetano do Sul e está no último semestre da faculdade de pedagogia na Universidade Metodista.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Vamos registrar histórias?

Caros amigos,

Há quem diga que a memória está em crise. Há quem considere a memória como objeto do passado. Por outro lado, há quem defenda que, para se entender o hoje, é preciso uma perspectiva histórica e que os atos de construção de narrativas compõem as histórias do tempo presente.
Pensando nisso, este ano o Ponto de Cultura Apap Arte Cidade, vinculado à Fundação das Artes, vai ter, como tema central de seus trabalhos, a MEMÓRIA. Serão realizadas uma série de atividades ao longo do ano. Para começar teremos uma semana de seminários no mês de março. 


Palestra de abertura
Os registros da memória  | 22/03 | terça-feira | 20h
Com Edmir Perrotti

Seminários
Memória do teatro |23/03 | quarta-feira | 20h
Com Priscila Perazzo e Roseli Fígaro

Memória do subúrbio | 24/03 | quinta-feira | 20h
Com Ademir Medice e Luiz Roberto Alves

Memória da canção | 25/03 | sexta-feira | 20h
Com Heloísa Valente e Herom Vargas

Local: USCS – Universidade Municipal de São Caetano do Sul – Campus II
Rua Santo Antônio, 50, Centro, São Caetano do Sul

Também estão abertas as inscrições para a oficina:  Minha memória sua - Vidas tecidas de lembranças e esquecimentos. Vou participar desta oficina que contará com a presença de diversos profissionais com o objetivo de oferecer subsídio teórico e assessoria para que pessoas, nos mais diversos setores de atividades, possam desenvolver formas de registro e reflexão sobre a memória social, com ênfase nas possibilidades de registro de narrativas orais
Sendo assim, com esta oficina será possível:
·          Valorizar o universo dos participantes permitindo que eles se reconheçam como seres sociais ativos e como formadores do processo histórico;
·          Apresentar material introdutório sobre: memória, identidade, comunidade e História Oral;
·          Compartilhar exemplos de registro de narrativas, organização de centros de memória e criações artísticas a partir de histórias de vida;
·          Orientar a elaboração de projetos de memória;
·          Indicar caminhos práticos para a execução e difusão de projetos de memória;
·          Refletir sobre a importância da memória na formação cultural humana e a participação do indivíduo na construção da história da comunidade.

Período
De 02 de abril a 03 de dezembro de 2011
Sábados, das 9h às 13h (encontros quinzenais)

A quem se destina

Interessados em organizar projetos de memória: cidadãos, organizações sociais, educadores e artistas. (maiores de 16 anos)

Seleção
Carta de interesse. Entregar na Fundação das Artes ou enviar para o email apap.artecidade@fascs.com.br até o dia 19/03.

Conto com o apoio de vocês para a divulgação das atividades. E, mais do que isso, conto com a presença de vocês. 

Abraços,

Paula Venâncio

terça-feira, 1 de março de 2011

Narrativas registradas

Decidi compartilhar alguns dos vídeos produzidos em 2009 pelo Memórias do ABC - Núcleo de Pesquisas e Laboratório de Produções Midiáticas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). Entre 2003 e 2007 foram realizadas algumas pesquisas de Iniciação Científica sobre a memória do teatro no ABC.
Quando eu cheguei para trabalhar no Memórias do ABC, em 2007, as pesquisas já haviam sido concluídas. Tínhamos um material nas mãos. Mesmo sem grandes recursos, produzimos o vídeo Imagens e Narrativas do Teatro no ABC Paulista de 1950 a 1980, cujo projeto maior tinha apoio do CNPq. O resultado de pesquisa em vídeo parte de narrativas orais de artistas do ABC (e aqui se considera: Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), tendo o teatro como meio de expressão de valores, representações e imaginários sociais.
É certo que tais vídeos não dão conta de explicar o movimento do teatro regional. A produção das demais cidades que compõem a região do Grande ABC ficou de fora. Muitos grupos não foram citados, muitos artistas não foram entrevistados. Há muitas brechas, algumas falhas técnicas. Mas tenho certeza de que, mesmo com tantos problemas, estes vídeos contemplam o objetivo de mostrar que é possível e necessário que as histórias sejam registradas e compartilhadas. E, com o intuito de produzir um novo material, que preencha algumas lacunas, tomei fôlego para o Mestrado. Estes vídeos também se tornam importantes quando levamos em consideração que a partir dessa e outras produções, o Memórias do ABC ganhou mais espaço na Universidade e teve um projeto para ampliação de sua estrutura, construção de um estúdio e compra de equipamentos aprovado por órgãos financiadores de pesquisa.
Foi um primeiro passo. Conto com a colaboração de vocês para entender e preencher as lacunas. No meu projeto de Mestrado vou trabalhar com os grupos existentes entre 1960 e 1990, nas cidades de Santo André, São Bernardo e São Caetano. Estou definindo alguns marcos do movimento teatral na época (como por exemplo, os Festivais de teatro amador, o GTC em Santo André, a Fundação das Artes, o Forja, o surgimento da ELT)  e vou entrevistar alguns dos artistas, por isso, se você fez teatro ou conhece alguém que participou de grupos nessa época, entre em contato comigo.
Bom, por enquanto é isso. Seguem os vídeos.

Contexto histórico e manifestações artístico-culturais do ABC: A formação do ABC Paulista, sua divisão em municípios na década de 1940 e o surgimento das manifestações teatrais na região.




Artistas e Grupos Amadores: Como surgiram, onde e de que maneira desenvolveram suas atividades artísticas nas décadas de 1950 e 1960.





Mulheres em Cena: Como eram vistas pela sociedade do ABC Paulista em confronto com as mudanças socioculturais vividas nos anos de 1950 e 1960.




Censura e Imaginário: Como os artistas do ABC se relacionaram com os mecanismos de censura impostos pelo Governo e pela sociedade autoritária.




Poética do Subúrbio: A profissionalização, a preocupação com a descentralização do teatro em relação à cidade de São Paulo e a construção de uma identidade cultural local.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A construção de um acervo hipermídia

Pedro Alves dos Anjos e Raquel Nantes Taveres, 
pesquisadora do Memórias do ABC, 
durante gravações de roda de histórias
Desde 2003, o Memórias do ABC – Núcleo de Pesquisas e Laboratório de Produções Midiáticas da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), coordenado pela Profa Dra Priscila Ferreira Perazzo, desenvolve projetos de pesquisa sobre a memória social do ABC Paulista. Os pesquisadores, que envolvem a graduação, a pós-graduação e profissionais de áreas técnicas, concebem a memória como importante instrumento para investigação da história, da economia, da política, da sociedade e da cultura locais.
Os sentimentos, valores e significados que a memória traz interferem na forma de viver, de se relacionar e de conceber o mundo que cerca os sujeitos. Nesse sentido, por meio de entrevistas com pessoas, que narram suas histórias de vida ou contam suas impressões sobre determinados temas, é possível estudar diversas questões sobre a sociedade, a cultura, o cotidiano, o imaginário, a linguagem, as mídias e a política da região. 
Ana Maria Medici. 
Grupo Cênico Regina Pacis (SBC) 
Acervo Hipermemo. Memórias do ABC.
Os depoentes ou narradores são considerados sujeitos históricos, ou seja, são tanto produtores dos fatos, seus personagens ou testemunhas oculares, como aqueles que os relatam, que os reconstroem para a posteridade. Em outras palavras, pelas próprias experiências de vida, geram interpretações dos acontecimentos por eles vivenciados no tempo e no espaço. 
Até o ano de 2009, o grupo de professores e alunos desenvolveu 19 projetos temáticos. Todo material faz parte de um acervo de hipermídia de memórias, o HiperMemo, que, em breve, estará disponível para consulta pública.
Sobre o teatro regional, além de monografias e artigos publicados, o Memórias do ABC produziu o vídeo Imagens e Narrativas do Teatro no ABC Paulista (1950-1980)” como forma de divulgar as pesquisas realizadas desde 2003, com apoio CNPq, tendo por base as narrativas orais de artistas do ABC (aqui entendida como Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul por conta de delimitações de campo de pesquisa), que fizeram do teatro seu meio de expressão de valores, representações e imaginários sociais.
Bri Fiocca e Sérgio Rossetti. 
Grupo Teatro da Cidade (GTC). Santo André.
Acervo Hipermemo.  Memórias do ABC
Dividido em cinco capítulos, o vídeo de 82 minutos, contempla o contexto histórico da região, a produção dos artistas e grupos amadores, a participação da mulher em cena, a relação dos grupos com os mecanismos de censura e a indicação de uma poética do subúrbio, com a procura pela profissionalização e a preocupação com a construção de uma identidade cultural local.
É obvio que o vídeo não dá conta de explicar o movimento teatral na região do ABC, mas pode ser um pontapé inicial para que artistas e pesquisadores desenvolvam trabalhos dedicados a memória do movimento artístico regional.
Inajá Bevilacqua. 
Espetáculo “Vereda da salvação”. 
Grupo de Teatro Amador TAPRIM 
Acervo Hipermemo. Memórias do ABC.

Há quem diga que a memória é coisa de velho. Assim, esquecemos de registrar nossas histórias. Esquecemos que nossa narrativa representa uma visão de mundo e, consequentemente, pode nos ajudar a compreender a sociedade.
Eu, pessoalmente, acredito na importância do registro e preservação da memória social, como parte integrante daquilo que se entende por cidadania cultural – memória como direito do cidadão, como ação de todos os sujeitos sociais.
Ah, o site do Memórias do ABC vai ganhar uma cara nova em breve, mas já existe um material disponível para consulta. E as fotos e o vídeo que acompanham este texto também fazem parte do HiperMemo.






A importância do registro das narrativas dos artistas locais: reflexões sobre a poética do subúrbio

Falar sobre as cidades do ABC Paulista utilizando termos como subúrbioregião ou local, para muitos, pode indicar um sentido pejorativo de espaço limitado e de reprodução, aquele triste quintal de uma tal capital. De fato, ao longo do tempo, tais palavras transformaram-se em fala comum ao se fazer referência às cidades que estavam geograficamente localizadas à margem da capital do Estado. Também é possível dizer que, ao se pensar na história dessas cidades, torna-se recorrente a ênfase às questões relativas ao movimento operário e às lutas sindicais. No entanto, para compreender a história dessas cidades deve-se considerar o uso de tais palavras de forma mais ampla, pensar o subúrbio como espaço de trabalho e desenvolvimento industrial, mas também como espaço de criação de identidades e de comunicação de culturas e, dessa forma, permitir que o teatro do ABC, assim como as demais manifestações artístico-culturais, não fique relegado ao plano do esquecimento, uma vez que por meio dele os moradores da região teceram laços sociais, expressaram seus imaginários, criaram identidades locais, comunicaram suas culturas e se reconheceram como comunidade.
Discussões atuais sobre o movimento teatral do ABC perpassam as questões de formação de público e implantação de projetos de políticas públicas de fomento à cultura, mas pouco se fala, ou melhor, pouco se faz para garantir o registro da memória do teatro regional. Enquanto a discussão caminha no plano da contemporaneidade do movimento artístico, narrativas, imagens e textos encenados se perdem. A história se esvai.
Ao longo da segunda metade do século XX, as cidades que compõem a região do ABC firmaram-se como símbolo de pujança econômica, espaço de moradia e trabalho para migrantes e imigrantes. Nesse novo local juntaram-se pessoas com diferentes culturas e identidades, unidas pela possibilidade do trabalho, que buscaram identificações muito antes de se reconhecer como classe e discutir questões de diretos trabalhistas. E foram em praças, clubes, igrejas e associações que tais pessoas em seus momentos de lazer, como vazão para a sensibilidade e forma de interação social, começaram a constituir uma identidade regional por meio das manifestações artístico-culturais. Assim, para pensar sobre o movimento teatral dessa região é certo que não se pode conceber o local como uma unidade cultural, homogênea e específica, é preciso valorizar os sujeitos da ação, a história dos indivíduos que modificaram a paisagem do subúrbio, lhe conferiram representações e símbolos em um processo de construção e desconstrução das identidades locais, que fizeram dos salões de igrejas, clubes, palcos e mesmo das ruas espaço de criação e reflexão.
Para se pensar na história do teatro regional é preciso tornar o protagonista dessa história o homem e a mulher comum do ABC que, tantas vezes, assumiram o papel de artistas nos palcos, mas interpretavam cotidianamente o papel de operários e operárias, professoras, secretárias, funcionários e funcionárias públicas, líderes sindicais ou filiados, donas de casa, desempregados etc. A rememoração da trajetória do movimento do teatro regional, pode se constituir em ferramenta importante para os artistas locais e corroborar a intensa e crescente produção de grupos teatrais ao longo dos anos. E, mais do que propor que as pessoas falem sobre sua história dentro do movimento, é preciso que tais narrativas sejam registradas, tornando-se mais um documento, que não substitui o documento impresso, seja ele textual ou iconográfico, mas revela novas perspectivas, uma vez que trabalhar com histórias de vida pressupõe o encontro com uma narrativa seletiva daquilo que o entrevistado guarda em sua memória e constitui-se de elementos fundamentais para a formação da identidade individual e coletiva, ou seja, ao narrar suas lembranças os artistas-cidadãos abrirão espaço para um processo reflexivo. Se por um lado faltará a precisão com datas e pormenores, haverá uma riqueza de narrativas, já que a seleção imposta pela memória de cada artista trará múltiplas visões de mundo. Existirão silêncios, existirão estereótipos. Mas haverá a riqueza de uma história ressignificada já que o narrador falará do passado, mas com a avaliação de sua identidade constituída no presente.
É preciso que exista espaço para se pensar e discutir o movimento do teatro regional em todos os tempos (passado-presente-futuro) para que se possa compreender essa história e o processo de construção dessas identidades e identificações e, com isso, escolher novos rumos para a produção local que contemple essa realidade e as necessidades regionais.